terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

E tudo ficará bem...

~ Esse texto faz parte de uma brincadeira que fiz com o meu namorado. Um tema por dia, escolhido entre 5.Como foram temas pensados para serem desenhos e não texto alguns podem ser estranhos mas tentarei adequados a esta proposta.
Tema de hoje: Ninfa do gelo ~

Quando tinha uns 7, 8 anos vi pela 1 vez a neve. Nessa época estava visitando minha avó em São Joaquim, SC, e apesar de ser uma coisa quase corriqueira nas épocas de inverno, pra mim, garota criada em um apartamento em São Paulo, aquilo era mágico. Me sentia dentro de um especial de Natal da Disney.
Sai correndo da cama e tentei acordar minha prima, que, como já estava acostumada, simplesmente balbuciou e me mandou voltar a dormir, mas a emoção de ver aquele branco caindo do céu e cobrindo tudo era grande demais para simplesmente ignorar. Fiquei olhando pela janela maravilhada em ver cada pontinho preto esverdeado tornando branco, olhava para cada parte que ainda não tinha recebido o toque do frio até ficar coberto.
E enquanto eu olhava vi um brilho estranho no meio do gramado. Fiquei com medo, mas ao mesmo tempo fascinada. Pensei em chamar minha prima, pensei em gritar pelos meus pais... mas não conseguia fazer nada, além de olhar fixamente para o brilho azulado, e foi durante essa observação que percebi que o brilho estava ficando mais fraco.
Meu coração se encheu de pânico e urgência. Precisava ir ate lá, ver o que estava acontecendo.
Então calcei uma pantufa e, usando o caminho cimentado que estava com menos neve, corri em direção à luzinha. Quando fui me aproximando vi que emanado aquela luz, estava um corpinho que parecia de uma criança menor do que eu na época, parecia uma fada, apesar de não ter asas.
Era uma pequena ninfa. Era linda e ao mesmo tempo tão frágil.
Quando me aproximei, ela abriu uma fresta dos olhos, num movimento difícil porem notavelmente com medo. Aproximei-me para pega-la, ela se mexeu um pouco tentando lutar contra, mas não tinha forças para isso. Quando a abracei pude sentir seu corpinho gelado, tentei aquecê-la com meu corpo e blusa, mas percebi seu brilho ficar mais fraco.
Comecei a chorar, as lágrimas escorriam dos meus olhos pelo meu rosto, uma encostou no corpinho e congelou instantaneamente, e então percebi que não era uma ninfa de flores e floresta, como sempre imaginamos, e sim de gelo. Ela estava ali fazendo aquela neve toda. Corri para o meio do campo com os olhos ardendo e os pés encharcados por causa do gelo que derretia. Fiz uma caminha e a cobri com gelo.
Minhas mãos e pés estavam frios, mas não me importava, só queria ver aquele brilho voltar. Me ajoelhei do lado e rezei. Rezei o que conhecia naquela idade. Rezei de forma fervorosa e infantil. Pedi pra anjos, santos, Deus e deuses... Pedi para qualquer um que pudesse me ouvir.
Minha mão já estava ficando com os dedos roxos quando senti os dedinhos os envolverem. E da sensação fria daquela pequena mão começou a emanar um calor. Que não aqueceu somente os dedos e sim meu corpo todo. Senti que tudo ficaria bem e ela voltou a brilhar. Um brilho tão intenso que tive que fechar os olhos e quando voltei a abri-los estava sozinha no meio do gramado.
Fiquei ainda por alguns minutos olhando envolta tentando entender o que tinha acontecido.
Se havia sido um sonho ou não e por anos fiquei pensando sobre isso, e então minha avó se foi, fechamos a velha casa, eu cresci, casei, mudei de cidade, tive filhos, descasei, mudei de Estado, tomei rumos diferentes do que quis e vi minha vida ser virada do avesso e hoje, simplesmente, peguei o carro e sem pensar estava em frente a casa de minha avó.
Abrir aquelas portas.
Subi os degraus até o antigo quarto das crianças.
E então senti os pequenos flocos de neve em meu rosto e o mesmo calor daquela luz azulada preencheu o ambiente e agora tenho certeza que, assim como aquela noite, tudo ficará bem.

2 comentários:

Sharingan.Will disse...

Que bonitinho!Adorei o toque de magia com o "será que?!" seguido de realidade da vida e por fim aquele sentimento de "era verdade enfim..."
E tudo ficará bem.

Ruh Dias disse...

que lindo!
a volta para a casa da avó me lembrou o Oceano no Fim do Caminho, e super consegui imaginar a ninfazinha! Quero ver uma também