segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Os 12 Trabalhos - Parte VI


Para entender a história toda:


...continuação...

Hercules se aproximou da mesa onde estavam de forma provocativa e desafiadora deixando-se cair no bando em frente:
- Foi difícil, mas está pronto. Diria que dá até para comer no chão, se não estivesse forrado com palhas novas.
O velho lançou um olhar desafiador e chamou no rádio:
- Pereira, verifica os currais pra mim.
Os dois ficaram se encarando em silencio esperando a resposta que veio como uma exclamação de surpresa e o sorriso de Hercules pela incredulidade de Lyon.
- Rapaz, tenho que dizer que estou impressionado. Sei admitir quando algo assim acontece. Já que sua manhã foi puxada, vou deixa-lo almoçar sem pressa, e depois te darei um servicinho simples. Você sabe caçar, certo? – Hercules afirmou com a cabeça – Ótimo. É coisa rápida...

Faziam horas que o rapaz estava parado, estático, no mesmo local. Deixou de sentir as câimbras e agora só lhe restava a dormência. O trabalho simples era caçar uma corça, mas o que não esperava é que fosse uma corça tão esperta e rápida. Tentou todos os tipos de abordagem que conhecia, mas ela parecia ter um sexto sentido que escutava o pensar de seu cérebro, por isso resolveu parar e esperar até tornar seu respirar como um som natural da mata e então pegar o animal que andava acabando com a plantação.
Seu esperar lhe rendeu frutos. A corça apareceu a uns metros de distância ainda ressabiada. Cheirou o ar. E ele espero. Ouviu a mata. E ele esperou. Seus olhos grandes e amendoados esquadrilharam o local. Ele mirou. Ela finalmente se abaixou para comer, já se sentindo segura e, naquele segundo uma flecha acertou a árvore que servia de apoio ao rapaz.
- Se continuar tentando pega-la, a próxima irá acerta-lo.
A ruiva desceu da árvore de forma ágil, se balançando e parando de pé, em frente a Hercules. Ela parecia ter mais do que seu 1,58m. Naquele momento não havia nada da adolescente blasée que conhecera na mesa de jantar, ela mantinha uma pose imponente e havia fúria em seus olhos.
- Acho melhor você arrumar outro hobby por aqui.
- Esse não é meu hobby, o Sr. Lyon me mandou. Ele disse que essa corça anda estragando a plantação e eu só precisava caça-la.
Ártemis nem ouviu o final da frase. Sua ira era palpável e seus pés ágeis sobre o solo irregular do pequeno bosque, tornava a caminhada uma corrida. Hercules tentava alcança-la, mas sem sucesso.
A jovem entrou feito um raio no vestiário ignorando completamente as exclamações de advertência dos outros ocupantes, se dirigiu diretamente ao senhor de corpo atarracado. Apesar da forma intempestiva que a garota entrou no local, sua voz saiu calma, porém firme.
- Sr, Lyon, gostaria que me explicasse o porquê o... – hesitou em dizer o nome do rapaz, para não causar complicações -  o... moço novo estava caçando a minha corça.
- Senhorita Ártemis, não poderia esperar até eu sair do vestiário – a ruiva o olhou de forma implacável – Não sei, acredito que... que... ele estivesse se divertindo. – Nesse exato momento Hercules cruzou a porta – Eu o dispensei logo depois do almoço, não sei o que fez depois disso.
Com a visão periférica Ártemis viu o rapaz abrir a boca para se manifestar, mas antes disso ela continuou.
-  Sinceramente, não me importa. Os funcionários desta fazenda são de sua responsabilidade e o sr. deveria passar as diretrizes. É de conhecimento geral - aumentou a voz e se certificou que todos a ouvissem - a proibição de caçar animais no bosque e você deveria tê-lo avisado. A partir de hoje, qualquer funcionário que for pego caçando, não apenas a corça, mas qualquer animal, o senhor será responsabilizado. Estamos de acordo? – a imposição da voz não permitia qualquer outra resposta. Ela sustentou o olhar, fez uma menção com a cabeça e saiu.
Lyon olhou para o caminho trilhado por Ártemis, como se pudesse vê-la a distância e murmurou – Menininha petulante.
Hercules se encolheu, evitando concordar ou discordar.

O rapaz conseguiu fugir do jantar daquela noite, inventou uma desculpa que, estranhamente, foi aceita rapidamente. Ficou perambulando pela propriedade, tentando decorar cada caminho e, quando a lua já estava alta, passou pela cozinha fez um prato com carne fria, legumes no vapor, alguns pãezinhos e um generoso pedaço do bolo de maçã e se dirigiu ao seu quarto.
Ao entrar percebeu a iluminação da lua e um par de perna balançantes que entravam pela claraboia, suspirou cansado, não estava com humor para visitas, principalmente àquela hora da noite. Subiu até o andar superior, dispôs os pratos sobre a cama e tentou avaliar quem era sua companhia da noite. As pernas eram femininas e esguias, porém ainda infantis.

- Ártemis?
- Boa noite, Hércules – respondeu a jovem sem se mexer – O céu daqui é tão bonito, não?!
O rapaz fez um som em concordância enquanto mordia seu lanche.
- Desculpa aparecer do nada, você deve estar super cansado, mas hoje eu precisava vir aqui olhar essa lua. Olha como ela está cheia e gigante. – a luz prateada que iluminava o quarto não deixava dúvidas, estava tão forte que não era necessário acender as luzes.
Ficaram em silencio por alguns segundos, que foi interrompido pela voz da garota.
- Desculpa por hoje. Tenho alguns animais que são de estimação pra mim. Não os prendo e nem são oficialmente meus, mas os considero como se fossem. A corça é um deles. O velho sempre reclama, diz que eles estragam as plantações e tudo mais, mas não ligo. Já conversei com meu pai e com todos aqui e ninguém vê problemas, só ele que cismou em caça-la. Como pedi que fosse dada uma ordem expressa a todos os funcionários de não mexerem com ela, o sr. Lyon te usou para tentar se livrar da pequena.
- Tudo bem, gostaria apenas de uma lista para não perder um olho ou algo assim.
A ruiva soltou uma gargalhada. Talvez tenha sido a primeira vez que Hercules ouviu a garota rir. Ela era uma adolescente soturna, mas ali, à luz da lua, emanava uma energia mais leve.
O silêncio se instaurou novamente, não um silêncio constrangedor e sim confortável, um alívio para a introversão de ambos.

...continua...

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