quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Quem conta um conto, aumenta 1 ponto...


Os 12 Trabalhos
Parte 1 


O rapaz ajeitou a camisa e bateu o pó da calça. Olhou para a grande porta a sua frente. A suntuosidade da casa só fazia aumentar o nó na garganta, o frio no estomago e sentir vontade de virar as costas, descer os poucos degraus da entrada e não tocar aquela campainha, mas chegar até ali foi tão difícil, o caminho tão longo, não podia simplesmente fugir e fingir que nada existiu, então ele respirou fundo, engoliu seco e apertou o botão.

Eram 7am e a casa já estava barulhenta como só um lugar com 6 adolescentes pode ficar. Os gritos de “sai logo do banheiro”, “mãeeee cadê minha jaqueta? ” e “Vamos logo! Não quero me atrasar! ” abafavam o toque suave da campainha. A mãe até tentou chamar a atenção:
– Alguém pode atender a porta? – mas não obteve resposta – ALGUÉM? – aumentou o tom mas todos pareciam ignorar e ela mesma teve que ir.
Largou a laranja que espremia e gritou um “Já vai!” enquanto limpava a mão no avental.
Ao abrir a porta ela se deparou com um rapaz forte, segurando um papel amassado e um tanto encabulado.
– É... Bom bom dia! Aqui é a casa do Sr. Gregório?
– É sobre o anuncio no jornal? Se for, pode falar comigo mesma, estamos precisando de alguém para ajudar na fazenda e...
O rapaz interrompeu – Zeus...Zeus Gregório?
– Sim. – Hera respondeu desconfiada enquanto afastava um pouco o corpo para analisar melhor o rapaz.
– Ele...ele... – o rapaz respirou fundo tentando conter a emoção – Ele se encontra?
Com uma cara de quem não gostou muito, Hera chamou sem tirar os olhos do garoto.
- ZEEEEEUS!
Um homem de uns 50 anos de ombros largos e uma aparência de ter sido um esportista na juventude, apareceu na ponta da escada com o colarinho da camisa levantado enquanto tentava colocar a gravata.
- Sim, querida.
Hera se virou e com uma expressão de quem não estava feliz com a situação, mas mantendo a voz calma disse:
- Este rapaz quer falar com você, QUERIDO.  – o tom enfático do querido fez o sangue de Zeus gelar.

Zeus indicou a sala para o rapaz e pediu que o aguardasse um instante. Entrou na cozinha e suspirou antes de fechar a porta de correr atrás de si. Olhou para Hera que estava transfigurada de ódio.
- Her... – tentou iniciar a conversa
- MAIS UM FILHO??? – interrompeu ela já histérica - É ISSO MESMO????
- Calma eu posso explicar...
- PODE EXPLICAR? EXPLICAR O QUE? “SABE, QUERIDA, EU MEIO QUE ESQUECI DE TE FALAR QUE    E U  A R R U M E I  O U T R O  F I L H O  Q U A N D O  V O C Ê  F O I  A O  M E R C A D O!” – Hera gritava enquanto arremessava ovos e farinha dentro de uma vasilha.
- Pode não ser meu filho. Ainda não sabemos a histó... – foi interrompido antes de concluir
- ELE É A SUA CARA!
- Pode ser do Poseidon – respondeu de forma rápida.
- SEU IRMÃO MORA EM VENEZA HÁ 25 ANOS!!!! E nem tente jogar para o Hades - disse apontando a colher cheia de massa de waffle - que esse deve ser assexuado.
- Talvez tenha sido naquela época que ficamos separados.... – arriscou uma última justificativa
- ELE DEVE TER A IDADE DO HEFESTO! – a partir deste ponto a voz de Hera ficou tão aguda que poderia ser ouvida apenas por cachorros, mas ela estava certa. Zeus sabia que não tinha como explicar. Foi uma pulada de cerca. Uma pulada de cerca fenomenal, que agora, 17 anos depois, estava batendo a sua porta, certamente com uma história triste para contar. 

CONTINUA...

Um comentário:

Ruh Dias disse...

SENSACIONAL! A sua Hera ficou incrível! Amei tanto esse conto que não sei nem por onde começar, ficou ótimo!
E Zeus todo acanhado sendo engolido pela fúria da Hera foi demais! E jurava que ela fosse tacar os ovos e farinha nele, rsrs!

Saudades de te ler.